CLAUDIA SCATAMACCHIA: DISCIPLINA, CRIATIVIDADE E MÚLTIPLAS INFLUÊNCIAS (Parte 2)


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A logomarca para o CNPq

Amigo de José Dion de Melo Teles, então presidente do Conselho Nacional de Pesquisa, Roberto Muylaert pediu a Claudia que desenvolvesse um novo símbolo para a instituição que, em 1974, viveu uma reformulação política e administrativa, teve seu nome alterado para Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e tornou-se uma fundação de direito privado com a missão de coordenar uma política global de ciência e tecnologia associada às concepções de desenvolvimento econômico e social do país.

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Em seu depoimento à pesquisadora Nancy Muniz, Muylaert acredita que “o fato de o logotipo ter se mantido inalterado mostra que Claudia fez um trabalho adequado”, compreendendo a essência do conceito de Dion: ressaltar “a inteligência do homem; todo o mais [é] consequência desta”.

Já a ilustradora, na conversa com Nancy, também em 2008, afirmou: “penso que a criação do logotipo do CNPq tenha sido mais simples do que você imagina. Não tenho boa memória e, sinceramente, não guardei nenhuma referência desse trabalho que, deve ter ocorrido no final dos anos 70. O desenho foi, sim, uma encomenda do dr. Roberto Muylaert e a ideia de ciência e tecnologia já estava vinculada à pesquisa. A solução de uma cabeça pensante (...) a inteligência, a concentração, as ondas do pensamento, com um polo central que se difunde em outras cabeças e se desdobra em ondas; a repercussão do saber me pareceu uma solução figurativa simples, de entendimento imediato, apoiada numa solução gráfica sóbria, harmônica e eficiente”.

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Acrescido da sigla CNPq [mantida mesmo com a alteração do nome], em 9/6/1978 foi feito o pedido de registro dessa logomarca ao Instituo Nacional de Propriedade Industrial (INPI) e, aprovado, identifica a instituição até hoje.


Um trabalho louqinho pouco aproveitado

Ainda no intervalo que separa o fim dos anos 70 e os trabalhos para a Bienal, Claudia começou a fazer ilustrações para o Círculo do Livro. Entre Fausto, de Goethe, e outros títulos, ela destaca Aventuras de Alice no país das maravilhas (1982) e Aventuras de Alice através do espelho (1986). Este, define como “um trabalho tão bonito, uma maravilha, em branco e preto, louquinho, louquinho, lindo, mas que foi pouco aproveitado, porque o livro era pequeno”.

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Para a Sociedade Lewis Carroll do Brasil as ilustrações de Claudia “para os livros de Alice são verdadeiras joias, em especial para o País das Maravilhas onde suas imagens são mais inesperadas e surpreendentes. Suas figuras têm grande força e beleza, estabelecendo uma abordagem particular do mundo de Alice com sensibilidade e sutileza. [Sua] singularidade reside em grande parte na relação entre os personagens e a arquitetura dos espaços, na interação de Alice com a paisagem, na composição, no ponto de vista, contribuindo a todo momento para um grande dinamismo e vitalidade para as aventuras de Alice, contrastando com a falta de movimento que predomina nas [outras] ilustrações de Alice”.

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Em seguida, o texto afirma: “Através de um pontilhismo cuidadoso os personagens adquirem um volume sutil, com grande sensualidade e leveza, contrastando com o jogo de planos geométricos que desestabilizam o espaço naturalista. Alice é frágil e desafiadora, etérea e sensual. Seus cabelos soltos brincam na paisagem num mundo de sonhos, desafios e surpresas.

[...] As ilustrações por sua vez também propõem desafios mais complexos para o leitor do que grande parte [de outras] ilustrações”, e exemplifica com mais dois desenhos [à esq. e abaixo, Alice no país das maravilhas].


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"Nesse segundo livro, a geometria da composição e dos cenários é mais enfática e determinante, tratamento merecido tendo em vista o caráter eminentemente geométrico do tabuleiro e das peças do xadrez, assim com de seus infinitos reflexos produzidos na superfície do espelho. Só que neste sentido podemos também identificar que as composições das cenas têm menos autonomia e originalidade do que no outro livro, se aproximando bem mais dos enquadramentos e pontos de vista definidos por Tenniel”.

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“Na composição e no tratamento dos cenários, predominantemente através de hachuras, linhas e planos sobrepostos, que se contrapõem ao pontilhismo dos rostos e expressões dos personagens, as ilustrações de Scatamacchia apresentam também afinidades com as fundamentais ilustrações do inglês Ralph Steadman. Outra conexão marcante com o trabalho [dele] é a ênfase dada aos cabelos de Alice, longos e esvoaçantes, linhas dinâmicas capazes de se integrarem a todo momento no ritmo e na geometria das cenas e composições.” [à esq. Alice através do espelho]

Para concluir, a análise afirma: “Cabe ressaltar que, muito embora as ilustrações de Scatamacchia para o País das Maravilhas sejam mais singulares e originais do que as do Espelho, estas ainda merecem destaque por sua coerência e sensibilidade, entre as reduzidas edições desse livro em português se comparadas às inúmeras [outras] edições para o País das maravilhas.”


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Ricos, mas nada de dinheiro

O resultado desse "trabalho louquinho, louquinho" foi um convite para integrar a representação da América Latina na Feira de Bolonha [a mais importante do livro infantil]. “Nessa hora ninguém te ajuda, né, gata? Fui ao Círculo do Livro e disse: ‘Olha estou levando o livro de vocês para Bolonha, a gente vai expor lá, representando a América Latina...’. ‘Parabéns, que coisa boa para você’”, foi tudo que ela ouviu, e nada de dinheiro. “Não me conformava, porque eles eram muito ricos, estavam crescendo com investimentos do exterior [essa iniciativa da Abril foi uma parceria com o Grupo Bertelsmann].


Burunfa em Barcelona

"O cara que cuidava de lá [do Círculo] tinha sido um dos diretores da Abril, era uma época de grande avanço nessa área, no infantil mais ainda. Mas aí pensei: ‘Quer saber de uma coisa, eu tinha dois ou três dias de hotel [concedidos pela Feira], então juntei minhas querelinhas, uma graninha, e fui por conta própria, com uma mochilinha nas costas. E foi ótimo. Fiz um trecho gostoso de trem e foi muito bom para mim, gata. Dei muita risada, porque a gente vai com pouca grana e acaba ficando em cada burunfa”. [Gargalhadas.] Em Barcelona, desceu do trem, foi até aqueles balcões de informações turísticas e disse:


– Olha, queria um quartinho.

– Que faixa de preço?

– A mais simplesinha que o senhor tiver.

– Não tem simplesinha, a não ser naquele lugar ali embaixo – e indica um pardieiro, o bas-fond barcelonês.

– Mas eu queria uma simplesinha sem perigo.

– Ah, sem perigo, então tá bom!


E foi parar nas Ramblas, na área perto do porto, pesadíssima [antes da revitalização da área para as Olimpíadas de 1992]. “A gente acha tudo legal, né, gata?”


Olha como a gente se diverte

Quem cuidava da pensão eram uns exilados chilenos, “todos simpaticíssimos, um lugar legal, o quartinho, ótimo, só que o banheiro [Gargalhadas], ai, gata, o banheiro era dentro da sala do café da manhã. [Risos] Tinha uma portinha pequeninha, aquilo era ridículo; eu entrava no banheiro e via que eles estavam vendo o meu tornozelo, um pedaço da minha perna e, em cima, a minha cabeça.” [Então ela se levanta, põe uma das mãos embaixo do queixo e a outra no joelho para mostrar o que as pessoas viam enquanto tomavam café]. “Pensei, ‘Quer saber de uma coisa, dane-se le monde. Ninguém sabe quem eu sou’. Olha como a gente se diverte, brega broccoli. [Gargalhadas]


Depois de Bolonha, exposição e cinema

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No mesmo ano de mais essa aventura na Europa, 1986, em julho ela participa, ao lado de Manabu Mabe, Amélia Toledo, Geraldo de Barros, Wega Nery, Mário Masato Aki, Fang e Jorge Mori, entre outros, no Museu de Arte de São Paulo (MASP), da coletiva “Takaoka e seus discípulos”. Yoshiya Takaoka (Tóquio, 1909-São Paulo, 1978; autorretrato à dir., foto de Hugo Lenzi), pintor, desenhista, caricaturista e cenógrafo, deu aulas de pintura para a adolescente Claudia, que o considera sua estrela-guia e diz ter sido esse “um profundo aprendizado de vida, respeito e humildade”.

Quase uma década antes, em abril de 1975, ela já participara do Salão de Arte Contemporânea de Santo André.

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Outra área pela qual enveredou foi o cinema. O diretor João Batista de Andrade, conhecido por "Doramundo" (1978), "O homem que virou suco" (1980) e "A próxima vítima" (1983), decidiu fazer um documentário sobre os dias da agonia e morte de Tancredo Neses, e Claudia fez o cartaz do filme. "Céu Aberto", foi lançado em 1986, e seu título foi extraído de uma frase do próprio Tancredo: "Ninguém conspira a céu aberto".


A carreira com o livro infantil

Com a interrupção abrupta da colaboração com o jornalismo, Claudia ficou com o livro infantil, “o que começou com grande dificuldade”, porque, ao visitar as editoras, ela se recorda de que pagavam muito pouco: “No jornalismo, para uma vinhetinha o pagamento era bom, mas o desenho para o livro infantil, por exemplo, quando fui à Moderna, era um quinto daquele valor pelo livro inteiro, então foi muito difícil”. Pouco depois, no entanto, o mercado começou a crescer e a valorizar muito o infantil, que “de 80 para cá deu um salto e tanto. Então pude ficar com o meu desenho nessa área”, ilustrando textos de autores como Ana Maria Machado, Cora Coralina, Joel Rufino dos Santos, Ilan Brenman, Ilka B. Laurito, Marcia Kupstas, Pedro Bandeira, Regina Drummond, Renata Pallottini, Ruth Rocha, Sidónio Muralha, Sonia Junqueira, Sylvia Orthof, Tatiana Belinky, sem mencionar os estrangeiros.


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Ática, Atual, Autêntica, Comenus, Cultura, DCL, Deleitura, Escala, FTD, Global, Mercuryo Jovem, Moderna, Papagaio, Paulinas, Paulus, Scipione, WF Martins Fontes são, de A a Z, algumas das muitas editoras para as quais ilustrou, ao menos, um livro. Para outras, ultrapassou a marca dos 20, numa trajetoria que não passa despercebida aos estudiosos. Em 2014, em Tecendo literatura: entre vozes e olhares, organizado por Nelly Novaes Coelho, Maria Zilda da Cunha e Maria A. F. Baseio, ao abordar o livro A maior boca do mundo, lê-se, na p. 181, que as “ilustrações de Cláudia Scatamacchia oferecem complementaridade nas ações e significados propostos pelo texto". Mais adiante, na p. 234: “A ilustração feita [por Claudia], como num conto cumulativo, vai incorporando cada personagem novo que surge à cena e todos acompanham Laurinha em sua busca”.

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No Almanaque Abril, lançado em 2005, ao abordar a Revista Recreio, "a primeira e única revista infantil semanal dos anos 1970 produzida no país [com] uma proposta literária e lúdica e um formato diferenciado, [sendo] cada número dedicado a um tema de interesse do universo infantil, como o Zoológico e o Circo nos dois primeiros números, os autores afirmam que "nos primeiros dez anos apresentou novos nomes da literatura infantil como Ana Maria Machado, Ruth Rocha e Joel Rufino dos Santos", e, na segunda fase, de 1980, em diante, sob direção de Ruth Rocha: "Deu oportunidade a artistas para atuar como ilustradores, que, mais tarde, se tornaram os grandes nomes dos livros infantis, como Walter Ono, Helena Alexandrino, Cláudia Scatamacchia, José Carlos de Brito e Rogério Borges". E a qualidade de seu trabalho foi reconhecida com prêmios como Jabuti, APCA e FNLIJ.



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Uma linha cheia de rococós

Entre as características de sua ilustração, ela reconhece que há influências da Renascença italiana, do colorido da pintura flamenga, da arte gráfica da Europa oriental. Mas “minha linha é barroca, cheia de rococós, vai pra frente, vai pra trás. A velha coroca [de Roberto Athayde] é um ótimo exemplo”.

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Quando comento que ela transita muito bem por autores, estilos, épocas e temas completamente distintos, de Homero a Lewis Carroll e a Câmara Cascudo, ela acredita, embora admita nunca ter parado para pensar nisso, que é resultado do trabalho no jornalismo.

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Desde os retângulos, quadrados e outras figuras geométricas para a Melhoramentos, Claudia identifica períodos fechados no trabalho editorial: nos anos 90 acabou a Moderna. Depois para a Martins Fontes fez muita coisa, “em branco e preto, que adoro, completamente diferentes, como o Pierre Gripari, um francês engraçadíssimo [autor de livros como Contos da rua Broca, à esq.]; depois vem o Roal Dahl [A fantástica fábrica de chocolate e Danny, o campeão do mundo, à dir.], cujo espírito é outro; mais tarde o Câmara Cascudo, totalmente distinto”.

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Sereia sem cara de Maria Bonita

"O Cascudo é do Rio Grande do Norte, mas as histórias são as tradicionais. A Cecilia [Reggiani, editora na Global] me ligava e eu dizia: 'Mas essa sereia aqui do Cascudo ela é eslava, não posso fazer uma sereia com cara de Maria Bonita, não dá.' Tive muita liberdade, e fiz do jeito que queria. O Cascudinho mais recente foi uma coisa engraçadíssima, porque eram pequenas historinhas bem nordestinas, então me esbaldei, né, gatinha? Fiz aquelas caras larguinhas, com aqueles olhinhos pequenos."


"Porque não faz só o Davi e uma pedra maior?"

Mesmo com toda liberdade de criação, o que lhe pedem, no bom sentido, admite, é para não exagerar. No dia desta conversa, ela entregara há pouco a Bíblia e o Gigante Golias, ambos de Orígenes Lessa, cujo texto “é coloquial, pequenininho, desse tamanho [indica com 3 dedos paralelos], com um página dupla, e tenho de enriquecer isso, gata, sem arrebentar o texto, compreendeu?

"Não posso colocar o que o texto não pede. Mas posso, e devo, enriquecê-lo, porque um quadro deste tamanho [indica a largura com os braços abertos], coitada das crianças, que graça tem? Pesquiso muito, adoro pesquisar, porque gosto de pintura, de arte”, mas isso se reflete no orçamento, “e o pessoal cai em cima. Chegam até a me dizer: ‘Olha, Claudia, em vez de fazer o Davi sentado nessa pedra e atrás dele um acampamento de guerra, cheio de cabaninhas’ – o que dá um trabalho danado –, ‘porque não faz só o Davi e uma pedra maior, sem o acampamento, em vez de ter esse trabalho do cão?'. Entendo quem me diz isso, porque a pessoa tá querendo me ajudar, dizem isso como um carinho à minha pessoa, mas não consigo, porque isso empobrece o desenho".


Deixa a criança, ou o adulto, voar

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Tal pobreza, no entanto, ela admite que talvez exista só a seus olhos, não aos de quem a contrata. “Mas para a criançada é uma experiência nova. E essa importância tenho visto nas atividades para o Serviço Social da Indústria", que a convidou para dar palestras e ela recusou [ao lado em atividade com o público na FNLIJ tal como faz para o Sesi]. Preferiu selecionar vários trabalhos bem diferentes que "levo na mochila de uma cidade para outra e mostro para as crianças. As professoras e até as merendeiras ajudam a arrumar as salas, a colocar as cadeiras para expor os desenhos e vou mostrando e respondendo perguntas, como se sou casada e tenho filhos, e percebo que elas se espantam em ver que tanta coisa é feita a lápis; aí digo que elas também podem fazer, porque também têm lápis e papel."

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E volta a falar do público, “que é essencial. Olha que interessante, adoro desenho, embora o ache muito difícil, não pensa que é simples, não; sofro para burro, mas acho importante. Gosto que a criança, ou quem vê o desenho, perceba que o cara tá no alto e que aquilo tem uma conotação com a história, porque ele é um herói; que a realidade de uma guerra, gatinha, está lá embaixo, que aquilo é um acampamento de guerra, porque deixa a criança, ou o adulto, voar." Esse é meu trabalho. E o define: "Há uma sensualidade no desenho, na ilustração, sinto o cheiro do material com que trabalho, lembro do cheiro do óleo de cravo que minha mãe usava quando pintava porcelana, o cheiro de terebintina, a densidade de vários materiais, tintas, a viscosidade de um ou outro material, isso é importante, faz parte do fazer do trabalho”. [acima, Os meninos verdes].

E reitera, com uma ligeira inflexão enfática na voz: “Gosto do que faço, muito, sei que estou cansadíssima, me arrebento toda. Mas, se começar a, em vez de fazer um belo acampamento de guerra, colocar uma pedra na frente para economicamente ser mais rápido e não criar problema, não vou me sentir bem. Se fizer só a pedra, estarei mentindo pra mim mesma, vou entregar porque preciso desse dinheiro, e isso vai ser muito triste. Não preciso fazer isso agora. Prefiro ir dar uma volta, passear, tocar piano”.


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"Que época a da censura"

"Agora, já estamos numa fase de declínio, disso tenho consciência absoluta, declínio segundo todos, aliás, porque a informática entrou até na área do texto. Agora com o computador, os bons ilustradores fundiram as duas linguagens e estão trabalhando bastante. A minha linguagem e o meu não computador vão acabar [à esq. O leão que rugia flores]. Talvez se torne alguma coisa especial, mas muito pouquinho, até porque os livros já estão indo para iPed, iPod. Só que agora já estou preparada, diferente lá detrás, que foi muito rápido. Como só trabalhava pra imprensa, só coisa imprensa, de repente, eles instalaram a rede de informática e acabou." E muitos outros profissionais também foram dispensados. "Naquela época quem fazia retoque nas gráficas acabou, o pessoal do forolito era genial, gata. Lembro de que na época da censura, trabalhei com essas revistas de mulher pelada, Status, da Editora Três, a Penthouse, que durou muito pouco, a Playboy que era a mais, mais, e a gente dava muita risada, porque com a censura não podia mostrar mamilo, absolutamente, não podia mostrar nenhum pelo pubiano, e os coitados dos retocadores ficavam em cima da xereca [Gargalhadas] tirando pelinho, pondo bolinha branca, bolinha preta e ficava pior, aquela coisa esquisita. Gata, que época essa a da censura."


"Será que era tão bom assim?"

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“Engraçado, e acho isso muito bonito, sabe, gata? Levei um susto quando me ligaram dizendo que iam fazer uma tese sobre meu cartaz pra Bienal, e me perguntei: ‘Será que ele era tão bom assim?’ Há pouco tempo houve essa menina do Texas, Angela Leite, filha de um antropólogo que há muitos anos morou no Brasil e estudou os índios, e quer falar dos meus desenhos. Isso está acontecendo muito ultimamente, então penso: ‘Quer saber, já fiz o que queria fazer. Ando meio cansada, fui reduzindo meu padrão de vida até estar bem, sem precisar virar noites trabalhando. Agora quero tocar um pouco de piano [Risos], ou violão, ficar em Parati, entrar no mar, curtir esse lado. Acho que já está na hora, posso fazer isso.”

E tais movimentos indicam outra inflexão, a da carreira.


"Uma coisa da minha alma"

Mas nem de longe Claudia pretende ficar de papo pro ar ou pegando onda. Ela está pensando seriamente no que vários editores já lhe sugeriram: “fazer um material meu. Sempre achei que não sou boa de escrita, e que não tenho muita coisa pra dizer às crianças, mas, quem sabe? Talvez me sentindo mais descomprometida financeiramente, não posso sentar um dia, começar a desenhar uma coisa minha, uma coisa da minha alma?”.


*****


Dedicatória

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Em 2008 a DCL lançou A Ilíada e A guerra de Troia, recontada por Silvana Salerno. Como em muitos outros livros, há um pequena biografia da autora e da ilustradora. Neste as palavras de Claudia foram:

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“Hoje, com anos de profissão como ilustradora, recebo como tarefa ilustrar a Ilíada de Homero, um clássico da literatura ocidental. Uma guerra de Troia envolvendo deuses, heróis e soldados assolados por suas paixões, glórias e poderes.

"Por ironia ou trapaça do destino, enquanto deuses e heróis gregos desfilavam em minha frente, eu implorava aos meus deuses clemência e compaixão para um grande amor que se esvaía numa batalha cruel e inglória numa cama de hospital. Finda a epopeia, agradeço a paciência e compreensão de meus editores e tomo a liberdade de dedicar este trabalho ao meu amado “loirinho Michel” [Micha, citado na Parte 1] que inicia uma nova jornada.”



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