JÉZIO GUTIERRE: UNESP, UM CASO BEM-SUCEDIDO DE ESQUIZOFRENIA EDITORIAL (Parte 2)

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Muito além da edição

Ao longo da trajetória, não só como editora, mas como Fundação Editora da Unesp, procuramos atingir outros objetivos, como os de formação, com a Universidade do Livro, que pretendemos desenvolver cada vez mais. E agora há condições de ampliação significativa dessa área. Além disso, também tomamos iniciativas típicas de uma editora que sabe quais são os pontos de estrangulamento de distribuição existentes para os livros acadêmicos e procuramos incentivar essas atividades, com as livrarias móveis [abaixo, à dir., no litoral paulista], visando sempre, na medida do possível, atender um público que normalmente não é assistido.

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​ E não é só: há os desafios que afetam o mercado como um todo e também a nós, como os livros digitais; o controle tanto da tecnologia quanto da parte de distribuição; e a intelecção do que está acontecendo. Estamos iniciando também a versão de conteúdos para o inglês para atingir o mercado internacional, o que não era viável quando não havia os canais de distribuição digitais. Todas essas são iniciativas que depois de 25 anos estamos maduros para adotar, e projetos não estritamente comerciais de curto prazo. Temos estratégias, não apenas táticas, de perdurar a linha da editora, perdurar essa trajetória com a mesma dinâmica que temos experienciado todos esses anos.

As traduções como meio de sobrevivência econômico-financeira

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​ Fato importante nesse caminho foi o acordo de coedição, mantido até hoje, com a Cambridge University Press [à dir.] para publicar seus títulos mais prestigiosos. E isso foi inédito também para a Cambridge, porque foi a primeira vez que ela fez uma associação com uma editora que lhe era externa. Isso foi bastante relevante, em especial na década de 1990, e já expressava um traço da editora para o qual novamente chamo atenção, pois isso está vinculado à sustentabilidade e à preocupação com o mercado.

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A editora precisa ter uma parcela de traduções expressiva até por uma questão de sobrevivência econômico-financeira. O papel, por exemplo, que os livros de Anthony Giddens [1938], Norberto Bobbio [1909-2004], Peter Burke [1937], Viviane Forrester tiveram no começo da editora foi crucial, fun-da-men-tal, porque permitiu e permite que levemos adiante projetos não tão rentáveis, projetos de publicação de livros que sabemos estarem muito próximos do break even [ponto de equilíbrio]. E essa atividade de compra de direitos, de presença internacional que a editora tem, pelo menos como comprador, duvido que na área de CTP alguma outra editora, universitária ou não, tenha. É claro que há editoras bastante mais velhas que têm em seu acervo um montante absoluto de títulos estrangeiros. Mas com a complexidade e a abrangência de contatos que temos com editores internacionais é difícil encontrar. Talvez em literatura. Mas, na área de não ficção, não se encontra outra editora com tantos contatos estáveis como temos hoje.


Um olhar oblíquo para editoras de latitudes baixas

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​ A presença constante em feiras internacionais, como Frankfurt, Guadalajara etc., depois de tanto tempo e de tanta sedimentação de confiança – coisa bastante importante para editoras de latitudes baixas, digamos –, é muito relevante em relação aos editores internacionais. No começo eles olham, ou olhavam, de um jeito meio enviesado. Até perceberem que a gente é “pobre mas é limpinho” foi um tempo. Hoje temos o que, até na dinâmica da Feira de Frankfurt, é fundamental: encontros cruciais, básicos, na terça-feira da Feira. Quem a conhece sabe que ela começa na quarta, mas os grandes negócios acontecem na pré-Feira, porque a Feira mesmo vai lidar com o resto. Os negócios de monta são feitos no Frankfurter Hof, na terça ao longo do dia e, de uns anos para cá, temos sido convidados para esses acordos que são firmados no Frankfurter Hof, o que é um diferencial para a editora, um índice do que representamos hoje no mercado de compra internacional e do que esse mercado representa para a editora.

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Essa presença é muito importante porque hoje, literalmente, podemos comprar quase tudo o que quisermos. O que pode fazer que não compremos é dinheiro, claro. Mas, se quisermos, temos preferência, temos os contatos, temos os caminhos para obter esses títulos da maneira como quisermos. E esse é um cabedal que a editora obteve por sua trajetória, que foi sendo minuciosa, trabalhosamente conquistado e construído pela trajetória de duas décadas e agora está estabelecido, é um ativo, um patrimônio, o qual nos permite fazer várias coisas. E uma delas qual foi? O Adorno [Theodor, 1903-1969], e com o Adorno, veio o Habermas [Jürgen, 1929], e com o Habermas, o Todorov [Tzvetan, à dir., 1939] e por aí vai.


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Acho importante mencionar duas coisas: em primeiro lugar, nossa presença é suficiente para editores muito desconfiados, muito cuidadosos, muito criteriosos, olharem para nós, lerem nosso projeto e depois o acompanhar, aceitar e elogiar. E isso nos foi dito com todas as letras pelo board de editoras como a Seuil [francesa] e a Suhrkamp [alemã, à esq. entrada em Frankfurt]. O que ouvimos é: “O plano mostra seriedade”. Obviamente a dinâmica interna é outra coisa. Até mesmo em Waterloo havia uns tropeços; se alguém olhasse o Estado-Maior de Wellington acharia uma zona, mas ele ganhava, fazia tudo direitinho na batalha, onde realmente importava. É claro que a retaguarda pode ter muitos tropeços aqui e ali, mas no fim das contas os planos editoriais que apresentamos no exterior são consistentes, sustentáveis, sólidos, dando a confiabilidade necessária para que o editor internacional os aceite. Por isso nossas parcerias são perenes. E editores internacionais só entrariam numa empreitada como essa se sentissem estabilidade e confiança no que está sendo feito. E foi o que efetivamente fizemos. É fundamental mostrar a confiança das editoras internacionais e como essas parcerias são importantes para nós.


Não é de um dia para o outro que se amarudece para a megalomania

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​ É muito relevante também considerar a capacidade que constituímos para dar conta desses projetos. Porque uma coisa é obter as autorizações, outra, tocar esses projetos. E fazê-lo não é algo que se consiga da noite para o dia. Não por acaso primeiro fizemos o Adorno, depois o Habermas, em seguida o Todorov para depois entrar em projetos como o que está agora em gestação, e começou no fim do ano, do Goethe [Johann Wolfgang von, 1749-1832, à esq.]. E não conseguiríamos fazê-lo se não houvesse essa expertise decantada durante todo o projeto complexo e trabalhosíssimo como é o do Adorno, permitindo agora dar conta do projeto megalomaníaco de traduzir toda a obra não ficcional de Goethe. É isso o que levaremos adiante nessa linha de maturação, de constituição de um catálogo que hoje podemos fazer.


O caminho para os clássicos

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​ E para esses projetos o aspecto da tradução é central. No caso do Adorno [como As estrelas descem à Terra, à dir.] mesmo que você pegasse qualquer tradutor com grande conhecimento de língua de saída e de língua de chegada ele não daria conta do autor e causaria um problemaço editorial. O que muita gente pensa e, à primeira vista, talvez até pudesse imaginar, é que se poderia adotar o mecanismo de pegar um bom tradutor não especializado para fazer essa tradução ou traduções semelhantes a essa e depois pegar um revisor técnico. Mas isso não funciona. Ou se tem uma pessoa que de saída constitui um texto que já está mastigado conforme o conhecimento que ele tem da área, ou se tem um texto que não é salvável, porque esse texto sempre vai acarretar problemas, sempre haverá lacunas. E isso porque qualquer processo semelhante a esse não é um processo de revisão, nem de retradução. Portanto, quando eu falava dessa precedência, dos projetos Adorno, Habermas etc., e os projetos que estamos levando em consideração agora – estamos terminando também para o começo de 2015 os quatro volumes iniciais da Enciclopédia [abaixo] de Diderot [1713-1784] e de D’Alambert [1717-1783] e os volumes Goethe – alguém poderia achar que a ordem cronológica faria mais sentido: primeiro a Enciclopédia, depois Goethe, Adorno, Habermas etc. –, mas não é assim, porque o cabedal de conhecimento, a expertise obtida nos projetos anteriores é que nos permitem fazer, com conhecimento de causa, conhecimento da dinâmica, esses classicões, seja do francês, do alemão, seja do inglês, e isso é muito importante.

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A qualificação camaleônica abre novas perspectivas para o mercado

O que aconteceu com a estruturação de coleções como Adorno e Habermas? Hoje podemos publicar títulos isolados que antes não podíamos, porque agora temos um rol de tradutores com o necessário treinamento, conhecimento que não tínhamos ou nem sequer existia antes desses projetos. As pessoas que eram meramente acadêmicos se qualificaram como tradutores, em primeiro lugar, e nos abriram possibilidades que antes estavam vetadas ao mercado, porque não havia gente com essa qualificação camaleônica de ser um tradutor e ao mesmo tempo um acadêmico. Isso abre possibilidades impressionantes para o mercado.

A tradução, em si, é uma coisa maravilhosa. São momentos espetaculares, dos momentos mais dramáticos da edição a possibilidade de traduzir fielmente esses conteúdos clássicos internacionais. Essa é a única maneira de fazer que uma determinada nação, uma determinada cultura, se integre e seja participante dos debates internacionais e do fluxo de informação e cultura internacionais. É isso o que os tradutores fazem, sem nenhum romantismo; é efetivamente isso o que acontece e não acontecia normalmente há algum tempo.


Uma histórias em golfadas

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É muito interessante ver a história da tradução no Brasil, porque há golfadas. O começo é a década de 1920 e logo depois com os comunistas. Se fizermos uma arqueologia das traduções desse decênio ficaremos impressionadíssimos com o número de títulos e a qualidade das traduções, com objetivos socialistas, claro.​

Depois, nos anos de 1930-40, há os trabalhos de Lobato que foi agressivamente nessa direção. Em seguida, nos idos de 1950 a Globo [à dir.], no Rio Grande do Sul, fez coisas impressionantes. Temos isso, golfadas, que terminam quando determinado projeto é concluído. Neste momento estamos chegando ao nível de sofisticação do mercado que provavelmente vai encontrar um patamar mais estável de agora em diante. É muito importante que esse esforço que se encontra em best-sellers – em literatura é extraordinário o que a [Editora] 34 tem feito com a Coleção Leste [abaixo], uma coisa fantástica –, existam também na não ficção, nos clássicos, pois temos de fazer algo também diferenciado, não só por uma editora, mas várias, e é isso que o mercado espera.


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Em síntese, as traduções foram fundamentais em toda a trajetória da Editora Unesp e, a partir dos anos 2000, vemos sua presença para a constituição dessas coleções de clássicos contemporâneos e dos séculos 18 e 19 que permitem à editora atingir um patamar e um perfil muito peculiares. Esse é um caminho sem volta para a editora no aperfeiçoamento da tradução de clássicos e incentivo para fornecer ao público brasileiro obras até então inéditas. Esse elemento é o que eu caracterizaria como essencial de nosso perfil atualmente. A editora hoje, entre outros tantos desdobramentos, privilegia a publicação de clássicos, em especial os inéditos no cenário brasileiro.

Em resumo, nossos desafios são ser uma editora de intervenção, que pretende aperfeiçoar o debate, externo e interno à academia, e uma editora que precisa se sustentar financeiramente. E o livro digital, entrando nessa equação, tem de atender esses aspectos da mesma forma que a edição tradicional.



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Jézio Gutierre é graduado em Economia pela USP (1977), mestre em Fil

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pela Universidade de Cambridge (1994), mestre em Lógica e Filosofia da Ciência pela Unicamp (1987) e doutor em Filosofia pela Unicamp (2000). Professor assistente doutor na Unesp, desde 2001 é editor-executivo na Fundação Editora da Unesp. Traduziu A questão de Jean-Jacques Rousseau, Os olhos do Império: escritos de viagem e transculturação (ambos em 1999); Popper: o historicismo e sua miséria (2000); Como escolher amantes e outros escritos, de Benjamin Franklin (2006); e Escritos sobre ciência e religião, de Thomas Henry Huxley (2009, à esq.).


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