IVAN MARQUES: "O VÍCIO DE VIVER ENTRE LINHAS, ENTRE LETRAS, ENTRE LIVROS" (Parte 2)


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O trabalho como organizador, do qual Ivan gosta muito, teve início em 2006, com Histórias do Romantismo, ao qual se seguiram seis outros (ver abaixo) para a Editora Scipione, os quais ele considera bem-sucedidos. O projeto foi desenvolvido para dialogar com um público amplo: vestibulandos ou recém-ingressos em cursos de letras em busca de referências. Também “pensamos nos professores, em materiais que pudessem usar em sala, e os eixos foram os estilos de época, Romantismo, Realismo, Pré-Modernismo e Modernismo, aliados ao mapeamento da história do conto no Brasil.”

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Gênero pouco desenvolvido no Romantismo, razão pela qual houve dificuldade na seleção, “o conto vive uma febre no século XX com Simões Lopes Neto [1865-1916, à dir.], Monteiro Lobato [1882-1948, abaixo, por Belmonte], Lima Barreto [1881-1922] e os regionalistas. A ideia central era mostrar a produção, como os contos evoluíram e apresentar a história da literatura no país a partir desse gênero. “Para cada livro escrevi um texto situando o autor e tentando indicar algumas hipóteses de leitura e interpretação do material selecionado.”

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Em seguida vieram Clara dos Anjos e outros contos de Lima Barreto e “O espelho” e outros contos machadianos, “projetos mais ousados, com perfil específico, em que se destacava e discutia uma questão na obra do autor”. O objetivo era mostrar a literatura em diálogo com outra área: filosofia, antropologia, sociologia, cultura, e, mesmo não sendo algo muito aprofundado, deu trabalho.

No caso de Machado, “selecionamos contos em que a questão filosófica está em primeiro plano, ou em que há uma discussão específica do autor com a filosofia, quer zombando de filósofos, quer tentando, de algum modo, filosofar também, ou, mesmo, em que há uma questão existencial forte, como em 'O espelho', no qual ele trata da alma, da natureza humana, da identidade. Para o apêndice mapeei as fontes filosóficas dele, lembrando que leu o Eclesiastes, Pascal [1623-1662], Michel de Montaigne [1533-1592], Arthur Schopenhauer [1788-1860], a fim de mostrar como isso entra em sua obra, fornecendo informações sobre esses filósofos para que o professor pudesse trabalhá-las de várias formas."

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"Já no caso de Lima Barreto, destaquei a questão racial, porque ele foi vítima de discriminação, a viveu na pele, então procurei problematizá-la, mostrando de que forma ele pensou o tema e como o negro aparece em seus contos. Indo além, mostrei como o negro tem sido tratado na literatura brasileira e quais são os pontos de inflexão do debate racial no Brasil: Os sertões [Euclides da Cunha], Casa-grande & senzala [Gilberto Freyre], a obra de Florestan Fernandes [1920-1995], relacionando classe social e racismo."


Tão difícil quanto Cecília Meireles e Vinicius de Moraes

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Alfredo Schmidt “foi a descoberta de um poeta pouco lido, muito importante em sua época, cuja relevância diminuiu com o tempo”, mas que permitiu a Ivan olhar o Modernismo de outro ângulo, porque os mais lidos e conhecidos, Drummond [1902-1987], Manuel Bandeira [1886-1968], Oswald de Andrade [1890-1954], Mário de Andrade [abaixo, por Batistão]. “Schmidt, como Cecília Meireles [1901-1964], ou Vinicius de Moraes [1813-1890], o primeiro Vinicius, não o da Bossa Nova, ou o Vinicius menor da poesia mais humilde, mas o primeiro Vinicius, parecido com o próprio Schmidt e com a Cecilia da poesia católica, espiritualista, são pouco conhecidos e difíceis de apresentar em sala de aula. Foi um grande aprendizado, uma oportunidade de ler uma obra, selecionar poemas e produzir um material crítico”.

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Tais projetos são oportunidades de sair “um pouco do gabinete, da universidade, estar em contato com editores, produzir livros visando outro público. O duro é que a própria produção fica um pouco prejudicada e os ensaios que desejo escrever, como um sobre Guimarães Rosa [à dir.], vão ficando de lado. Há anos digo ‘Agora vou escrever’, mas o ano passa e não escrevo, embora possa pensar que, com o tempo, ele está amadurecendo e um dia será escrito.”

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A atividade docente e a necessidade de preencher as lacunas na formação de base dos alunos

"O curso de letras cresceu bastante e é uma porta de entrada para muitos que desejam estudar na USP e encontram ali o acesso, porque o vestibular não é tão difícil. Atualmente são recebidos 800 alunos por ano, muitos de escolas públicas, independentemente dos programas de inclusão, aos quais ele é favorável, “porque me incomoda entrar numa sala de 70 alunos, para os quais vou falar sobre Lima Barreto [à esq.] e não ver um negro. Esse é um abismo sério, assustador.

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"Também há a ideia (que poderia ser discutida) de que o aluno de letras, quer se habilite em japonês, hebraico ou alemão, deve ter formação em literatura brasileira: 4 semestres obrigatórios. Meu aluno é uma pessoa de difícil definição. Ao longo do semestre vou conhecendo os que fazem bons trabalhos, demonstram interesse pela literatura. Em contrapartida, há um número grande que não sabe escrever, o que revela problemas estruturais, de base, em sua formação. Também não são bons leitores e descobrem a literatura ali. Tenho clareza de que meu papel, e de quem dá aula de literatura, é apresentá-la aos alunos, porque uns 10% serão futuros críticos, vão escrever teses, trabalhar em editoras, serão muito criteriosos. A maioria, no entanto, está ali ao deus-dará, não sabe nem por onde começar quando se pede que analise um poema.


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"Às vezes, ao corrigir trabalhos, penso que deveria parar e dar um curso de redação, uma oficina de texto, fornecer dicas básicas de concatenação de ideias, concordância verbal, nominal... Repito sempre para eles o que Vinicius de Moraes [à dir., em Los Angeles, foto: site oficial] dizia: 'toda frase imensa pode, deve, ser dividida pela metade. Não há frase longa, há ideias agrupadas que precisam de uma pontuação que esclareça e organize aquele pensamento'”.


As estratégias para dar aula

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Como professores, “nos apoiamos e nos estimulamos muito com os bons alunos, ao mesmo tempo que tentamos ser professor de todos, procurando transmitir o conteúdo da maneira mais eficiente. Atualmente trabalho muito com literatura e cinema. Por exemplo: dar o romance Vidas secas [edição da Portugalia] e, em seguida, exibir o filme homônimo [de Nelson Pereira dos Santos] e promover uma discussão. Primeiro, porque a maioria não viu o filme e ganhará muito culturalmente com um clássico do cinema nacional. Segundo, porque o cinema esclarece a literatura. E essa relação rende um ótimo debate, pois é possível perceber os esforços do diretor para traduzir um estilo apurado como o de Graciliano, as “estratégias usadas para traduzir a secura, a economia verbal, a agressividade, o brutalismo presentes no livro.

"Minha expectativa é de que percebam que alguns recursos não chegaram ao cinema por serem próprios da literatura, aprendendo assim mais sobre a especificidade do texto e entendendo o quanto Graciliano é psicológico, que tudo se passa na cabeça dos personagens, o que, evidentemente, não está no filme.

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"Em compensação, o quê está no filme e não está no livro? A interpretação, a trilha sonora, a fotografia, a luz. É maravilhoso perceber que há um trabalho com vários elementos, os quais elenco na lousa para começar a discussão, porque não quero que pensem no que mudou, como o enredo ou se tal personagem era mais ou menos importante. Essa é uma questão sempre presente no debate ente cinema e literatura, a fidelidade ou não ao livro. Muitas vezes o modo de ser fiel é trair bastante. Sempre brinco com a frase do ator Paulo César Pereio sobre os corintianos (nada contra eles), quando ele diz que ‘ser fiel é uma virtude canina’, isto é: fidelidade nem sempre é uma virtude. Por isso, a aula é sobre o diálogo entre essas duas linguagens. Esse é um projeto que estou implementando agora e considero uma estratégia muito eficiente para apresentar a complexidade de um texto literário. ‘Por que Graciliano é grande?’ ´[abaixo por Álvarus], e peço a opinião deles num texto curto”.

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"A docência, sem dúvida, é muito estimulante, embora cansativa. O esforço de projetar sua voz para 70 pessoas, estar seguro de seu discurso, não é fácil, só quem deu ou dá aula sabe o tamanho desse esforço. Não falo da preparação, mas da performação da aula, e aí se entende o ‘sofrimento’ de um ator, como Fernanda Montenegro, num monólogo de 2 horas. O que isso não custa para a pessoa? Dar aula é um pouco similar, não apenas pelo tanto que se aprende, um lugar-comum verdadeiro, mas também porque é muito gratificante. Às vezes uma boa pergunta muda o sentido de uma aula, de uma explicação, tanto quanto aprendo e me surpreendo com certas observações e, quando volto a falar daquele livro, há aquele elemento que não posso deixar de mencionar. É um processo muito rico, muito vivo, mais até, diria, que a TV, por mais que esta transpareça vitalidade”.

Ser professor, entretanto, não é para todos e alguns de seus colegas se sentem mais à vontade com a pesquisa ou com a produção individual. “Mas há o time dos que se encantam e estou nele, a despeito de reconhecer o desgaste e de, às vezes, desejar que houvesse menos alunos nas salas, porque, diferentemente do curso de jornalismo, onde éramos 15, 20 estudantes, havia muita troca. Posso dizer que a especificidade dessa aula é ser uma palestra: falo e a maioria escuta, mesmo com a interação que mencionei e valorizei. Se fosse diferente, poderíamos ter mais seminários, mais discussão."


O aluno do curso de letras da USP

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"O perfil dos alunos é de difícil definição e não é de quem já conheça literatura ou deseje se dedicar a esta. Alguns estão no curso para aprender uma língua, outros se interessam por linguística. Esses últimos não querem saber de estudos literários. Quando vejo um que sai no começo da aula, já sei: ‘É da linguística’. Já me acostumei e estou ciente de que nessa massa dificilmente o discurso vai chegar e seduzir a todos.”

Ao se tornar professor, em 2008, aos 44 anos, Ivan descobriu uma nova vida, teve de se reinventar, aprender um novo ofício. “Não foi só o objeto da literatura, que trato numa dimensão distinta daquela vivenciada no jornalismo cultural, mas sobretudo pelo desafio de preparar e executar, performar mesmo, uma aula de modo que seja boa para esse público mais indefinido que heterogêneo. Eu sabia que na USP seria professor e pesquisador, mas não tinha a dimensão dessa nova realidade, com a oportunidade de participar de congressos fora do país, de estar na graduação, de pesquisar, da aula que se alimenta da pesquisa e esta da aula, um universo muito rico onde entrei tardiamente. Às vezes fico pensando que em breve terei de me aposentar compulsoriamente, e vejo colegas que, justamente no momento em que têm mais conhecimento, mais experiência, não aguentam mais dar aula numa sala com 70 alunos e querem ter tempo para ler, escrever artigos ou ‘aquele romance’ há tanto planejado. Mas, sem dúvida, a universidade, na hora em que se faz essa opção, é para a vida toda”.

A participação na Fliporto e em outros cursos fora da universidade

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“Por um lado, é preciso se adequar ao contexto, saber que em certos lugares se pode ir mais longe e, em outros, ser mais conciso. Por outro, as duas coisas não se contradizem: se há algo de que falo em sala, então por que não falar para fora da sala? Por que fora vou sonegar o que sei?

Na Fliporto fui convidado para uma mesa sobre José Lins do Rego [1901-57, à esq.], o homenageado, mas não esperava que na plateia, na primeira fila, estivessa a família dele, e, mais do que a família, porque a família em si não me causou nenhum tipo de constrangimento, uma plateia, percebi logo, cuja expectativa era de que eu celebraria incondicionalmente a obra dele e, mais: que, para fazê-lo, era bom que eu falasse mal do Mário de Andrade, para deixar bem claro que Macunaíma era algo ruim e Menino de engenho, um grande romance.

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"Comparativamente, não existe esse tipo de constrangimento em sala, um espaço em que acho maravilhoso pode falar tudo, até me arrepender depois de alguma coisa que disse espontaneamente. Ali há muitos jovens muito pouco preocupados com valores, hierarquias, disputas, picuinhas, não querem ver o circo pegar fogo, não têm rabos presos.

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"Se vou à Fliporto [o segundo da esq. para a dir.] tenho de me acautelar e saber que não posso dizer o que digo em sala. Mas não acho que é o caso de sonegar e deixar de dizer coisas, porque a plateia é ampla, porque se trata de um festival literário. Sempre atingimos algumas pessoas e outras não, paciência. E isso já era algo da época do programa, não achava que ele teria uma audiência universal. Briguei muito na TV Cultura em torno disso, porque era um programa para quem gosta de literatura, e evidentemente, se ele continua no ar por um tempo, produz leitores. Sei disso e sei que esse papel é importante”. Lá eu recorria sempre a um exemplo: 'Não sou amante de futebol, só vejo jogo em Copa do Mundo, então por mais que criem um programa maravilhoso sobre futebol, em horário nobre na TV, vai me cativar? Não, porque não gosto de futebol.' Pensava e penso assim: vamos trabalhar primeiro com o público que está a fim de nos ouvir, produzir para eles, e não pensar em que não está nem aí para nós. É o caso do aluno da linguística, que sai da sala.

"Precisamos ter essa consciência, se não cometemos muitos equívocos. Seu programa não é universal, aliás, não existe audiência universal, nem para Globo, nem para o SBT; o que há são nichos de audiência: a novela da Globo atinge mais gente; um programa de entrevistas, bem menos.”


Formar leitores e difundir a literatura

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“A universidade e o curso de letras sem dúvida formam leitores e também leitores específicos de determinados autores e obras. Estou dando José Lins há 2 ou 3 anos na universidade, e os alunos me dizem: ‘Ah, eu tinha uma imagem tão velha dele', porque alguns autores não estão na moda, como Clarice [abaixo, por Frahm]. Há essa ideia de que José Lins é um autor desinteressante, velho, datado, mas a experiência em sala, com discussão, leitura, trabalho, é outra. Nas avaliações do curso, é muito comum dizerem isso dos autores, digamos, menos canônicos, menos glamourizados. No curso eles têm a experiência de lê-los, de descobrir que são mais interessantes do que pareciam. Acho, sem dúvida, que uma das funções do curso de letras hoje é formar leitores e difundir a literatura. Tenho certeza de que muita gente a está descobrindo no curso, muitos que só leram 2 ou 3 livros na vida e ali estão aprendendo a ler, bem como tendo sua primeira experiência de ler poesia.


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"E há quem faz seus poeminhas e depois pede para eu ler. Nessa hora não há o que dizer, mas há essa ideia de que, se você lida com literatura, vai ler tudo que lhe derem. Os autores no Facebook também pensam assim e pedem meu endereço para mandar um livro, pois acham que essa é sua profissão, sua vocação, sua missão, como se eu não tivesse mais nada para escrever."


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Quando os alunos trazem seus poemas e lhe pedem uma avaliação, ele identifica a inquietação característica da juventude de fazer poema, "mesmo sendo piegas, de amor à moda antiga. Mas, ao mesmo tempo, eles estão lendo Bandeira [acima], Drummond [abaixo, por ele mesmo], João Cabral, e descobrindo a poesia de um outro modo".


Formar leitores é nosso papel

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À pergunta se o ‘Entrelinhas’ formava leitores, a resposta é taxativa: “Sem dúvida, mas isso me escapava. Agora vejo um leitor se formando ao longo da minha disciplina e também na de outros professores mais experientes e com mais conhecimento do que eu. Formar leitores é nosso papel. Caso contrário, qual seria nossa função? Dar um diploma? Ensinar rudimentos de uma língua? As pessoas ali, pobres na sua maioria, estão adquirindo uma profissão, galgando o sonho de ascensão, e sei que colaboramos para isso também. Mas, na minha alçada, o que vejo é: leitores sendo formados".

Paralelos entre os cursos letras e jornalismo

Ao pensar o curso, também, como um manancial de profissionais que vão trabalhar em editoras, Ivan acredita que falta um diagnóstico preciso dessa situação. "Não saberia dizer que profissionais o curso de Editoração (na ECA, abaixo) está formando e se esse curso, ou o de outras faculdades, dá conta do que o mercado precisa. O que sei, porque conheço, é muita gente nas editoras cuja formação é em letras”.

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Em sua avaliação, tal como a do curso de jornalismo que fez, “aquele se pretendia ser um curso com alguma fundamentação humana, cultural, científica, mas essencialmente prática: ensinar a diagramar, a escrever, a editar, a fazer lead etc. Depois a gente se forma, caí numa redação e todo aquele aprendizado não ajuda em nada. Essa foi a sensação que tive quando entrei na TV Manchete, onde era apurador, ficava fazendo ronda policial, escutando rádio, para passar aos repórteres uma pauta interessante para irem atrás. Eu ficava atrás de uma porta, os repórteres chegavam, aquela coisa apressada, batiam a porta na minha cadeira o tempo todo, e eu mais observava os outros trabalhando do que efetivamente trabalhava. Só de ver uma reunião de pauta, uma discussão, um bate-boca entre a equipe e depois ver o que ia ao ar, aprendia muito mais. Então minha posição pessoal é essa: acho que se o curso de letras formar bons leitores, já dará uma boa contribuição. Se as editoras pegarem um material humano bom, pessoas sensíveis, que gostem de literatura, talvez possam aprimorar esse profissional."


Aprimorar recursos para a decodificação do texto

'Muitas vezes vi professores de redação ensinarem técnicas que, depois, percebi não funcionarem na prática. Não digo que a editora seja igual, mas são coisas relativamente próximas. Durante muito tempo defendi que o jornalismo fosse um curso que investisse na formação humana e cultural. Se o aluno acha que vai ser um jornalista de economia, seria bom se na universidade pudesse optar por várias matérias de economia, para sair dali com esse conhecimento mais abrangente, sabendo o que é inflação, mais do que as técnicas de redação.

E reitera: "aprimorar os recursos do aluno para a leitura, para a decodificação do texto, para, ao receber originais, hierarquizar, explicar, recusar, aceitar, se fizermos isso, daremos uma boa contribuição, porque a outra, digamos, mais formadora de um profissional do ponto de vista prático mesmo, me faz recuar à ideia do curso de jornalismo".

"Pensando no curso de letras, bem poderia haver duas ou três, ou uma série de disciplinas focadas em produção de texto, pois instrumentalizaria mais o profissional [revisores, preparadores, copidesques]. Sem dúvida as editoras colhem muito de nossos alunos, por isso deveríamos discutir esses aspectos. Na verdade, nos acomodamos, por exemplo, ao achar que formamos só professores ou pesquisadores, pois o leque é mais amplo. Essa é uma ótima discussão, porque nos faria pensar o que se poderia fazer por esse profissional.


Antes, porém, sanar as dificuldade da escrita

"Imagino que nas editoras haja demandas específicas. Às vezes me parece que eu deveria interromper o curso e fazer um laboratório de texto, o que outros professores também dizem. Talvez haja, sim, a necessidade de pensar um curso de extensão ou em incluir outras matérias. Por exemplo, quando fiz jornalismo não havia língua portuguesa, tornada obrigatória depois que saí, o que eu achava uma lacuna. Mas, como sempre gostei de gramática, de escrever, de ler, não me fez tanta falta, eu sabia a diferença entre um objeto direto e um indireto, e não cometia os erros graves de concordância, regência, que vejo meus alunos cometerem."


A literatura brasileira contemporânea

"Já acompanhei mais a literatura brasileira contemporânea. Hoje, às vezes, se passa um ano e não li nada do que saiu, e nas férias tenho de correr para me atualizar. Há muita produção, muitas publicações, e uma competência média, ou mediana, que se estabeleceu, que parece ao alcance de muita gente. Não sei se isso vem dos trabalhos da própria profissionalização das editoras, porque sei que há um trabalho de formiguinha, de muita generosidade que os editores têm com os autores, e temos escritores para mandar a Frankfurt, para lotar várias Flips, festivais literários. Mas está difícil uma coisa que surpreenda.

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"Recentemente respondi a uma enquete vinda do México, acho que da universidade, querendo saber qual era o grande romance brasileiro dos últimos 20 anos, e tive dificuldade em responder, porque fiquei pensando em outra coisa: em quaisquer outros 20 anos da literatura brasileira que eu pensasse, havia uma obra, ou um conjunto de obras, que destacaria com muita facilidade. Se penso na década de 1930, penso em Graciliano [1892-1953], em José Lins, em Raquel de Queiroz [1910-2003]; na década de 1940, surge Clarice, Guimarães Rosa; dali a pouco tem Lygia Fagundes Teles, Osman Lins [1924-1978, acima, à esq.], Dalton Trevisan, João Antonio [1937-1997]; mais adiante, Raduan Nassar [abaixo, foto: IMS]. No entanto, me parece que nos falta uma produção que vá além dessa competência que todo mundo, ou a maioria, atingiu.'

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Supresa no Prêmio São Paulo de Literatura 2014

"O que predomina hoje é um número grande de títulos, gente para ser publicada e premiada. Fui jurado várias vezes, inclusive o que digo é muito à luz da última experiência, em que li 20 romances e fizemos uma escolha [Anel de vidro] que surpreendeu a todos, porque escolhemos Ana Luisa Escorel [abaixo]. Quem sabia da existência dela, sabia que é filha de Antonio Candido, mas nunca se imaginou que ela escrevesse, e escrevesse bem.

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"Não fui à entrega do prêmio, mas um passarinho me contou que, ao anunciarem o nome dela houve uma decepção geral, porque havia ali muitos escritores profissionais, que publicam todo ano, achando que iam pôr a mão naqueles R$ 200 mil. Havia muita coisa boa, sem dúvida, mas faltava algo que nos fizesse pensar na literatura brasileira como um lugar de invenção, de surpresa, e não simplesmente de execução de competências.

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"E o que achamos da escrita dela? Achamos que era uma coisa de uma fineza, de uma profundidade, e, ao mesmo tempo, de uma segurança e nada virtuosístico, nada feito para impressionar. A mim pareceu feito do alto de uma maturidade que raramente se conquista, além de uma história muito envolvente, muito bem escrita. Porque fui para a reunião do júri, tinha uma aposta, sabia que era inesperada, e, ao ver os outros jurados apostando na mesma coisa, pensei: ‘Que bom, não estou louco. Vamos dar esse prêmio com convicção’."

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Lendo além dos mortos

'Leio muitos autores. Gosto muito do Cristóvão Tezza [à dir.], de Curitiba, e gostei muito de ler o Joca Terron agora, que, aliás, é grande amigo meu, mas cuja produção eu conhecia muito mal e, de repente, vi que A tristeza extraordinária do Leopardo-das-Neves era um romance muito consistente, bem arquitetado, com um título sugestivo, curioso, e com uma imaginação grotesca, bem-humorada.

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"Mas falta algo de que a gente se lembre na hora que vem uma enquete, e aí você pensa, ‘Meu Deus, Raduan Nassar, mas um culto que já virou excessivo, e talvez seja um culto que se justifique por esse vazio, essa coisa média que virou a literatura, tudo muito parecido. Dos últimos escritores nossos de que gosto em particular, mas que, inclusive, já estão mortos, lembro de João Antonio e Rubem Fonseca. Mas do Rubem dos contos, não desse Rubem que começou a produzir feito uma máquina.

"É um pouco isso que acho que está faltando para a literatura brasileira: projetos que invistam mais tempo em um romance. Gente dizer, de repente: ‘Sei escrever, mas vou esperar uma grande ideia, vou esperar maturar melhor uma ideia’, e não produzir só porque o mercado demanda. Me parece que muitos autores pensam que se não publicarem por um ou dois anos, as pessoas vão esquecê-los. Vivemos essa época em que se tem de publicar, de aparecer no jornal.

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'Essa quantidade de autores é um sinal positivo, pois significa que, se hoje temos uma competência média, é porque temos nomes recentes, como Rubem Fonseca, Lygia [à dir.], Clarice, Graciliano, que vêm da tradição que se formou, autores de grande impacto em quem produz hoje. Quando leio esses autores, sobre os quais dou aula, e depois vou ao concurso e leio aqueles romances, aí se entende a diferença. É difícil até explicar."


Mal costurado como o paletó


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"O que Graciliano tem que esses outros não têm? Um talento extraordinário, sem dúvida, mas talvez uma consciência crítica bem maior, uma exigência maior em relação à sua própria produção.

"Graciliano morreu dizendo que os livros dele não prestavam. Em Infância ele conta que, quando menino, vestiu um paletó e sabia que estava feio, mas alguém elogiou. Naquele dia ele aprendeu que elogios são falsos e que nunca deveria acreditar neles. E comparava o romance ao paletó. Quando alguém dizia alguma coisa positiva de um romance seu, ele o comparava ao paletó e dizia: ‘Aí eu penso que esse meu romance está mal costurado, o acabamento não é tão bom’, eu fiz, mas fui para a cadeia e não acabei’. Isso é um nível de exigência de alguém que não está só querendo aparecer na capa da ‘Ilustrada’ ou ganhar R$ 200 mil com um prêmio, mas de alguém que estava se medindo com a grande literatura universal.

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"Por que Graciliano se achava chinfrim? Porque ele não era Dostoiévski [à esq. por Carrilho], certamente isso ele não foi, ou sabia que não era Machado de Assis. Isso me admira muito em alguns escritores da nossa tradição pois tiveram consciência de seu tamanho, e eram exigentes em relação a si mesmos. Talvez hoje em dia seja esse o produto em falta no mercado."


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Ivan Marques é graduado em jornalismo (pela UFMG) e doutor em literatura brasileira (pela USP). Autor de Modernismo em revista: estética e ideologia nos periódicos dos anos 1920 (Casa da Palavra, 2013); Cenas de um modernismo de província: Drummond e outros rapazes de Belo Horizonte (Editora 34, 2011, à dir.) e organizador de Histórias caipiras (2012); Clara dos Anjos e outros contos de Lima Barreto (2011); "O espelho" e outros contos machadianos e Histórias do Modernismo (ambos de 2008); Histórias do Pré-Modernismo (2007); Histórias do Romantismo e Histórias do Realismo (ambos de 2006, todos pela Editora Scipione); e Melhores poemas, Augusto Frederico Schmidt, Global (2010).


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