SILVANA SALERNO: "A LITERATURA ENSINA SEM SE PROPOR A ENSINAR" (Parte 2)


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Quando se entra no estúdio onde Silvana e Fernando trabalham, numa rua tranquila de Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, de cuja janela se tem uma bela vista de parte da cidade, duas coisas chamam a atenção. Uma árvore, quase totalmente desenhada numa das paredes, e um par de botinhas pretas ao lado de uma estante, como se os pés que as calçaram tivessem se retirado pouco antes, depois de se esbaldarem nas brincadeiras infantis. Morando atualmente cada um em sua casa, desse modo os filhos Diego e Bruno estão perto dos pais. Este pintou a árvore, aquele chutou tanta bola que fez um furo numa das botas.


Em 1995, ao deixar a Design Interiores, Silvana foi trabalhar no Estúdio Sabiá, com o Fernando (que o assumira ao sair do Círculo do Livro), em projetos de coordenação de edições terceirizadas, cada um com sua equipe.


As coleções Germinal e Correndo Mundo

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Para a coleção concebida por Fernando, em 1999, e destinada a apresentar clássicos da literatura com viés social ao jovem leitor, Silvana traduziu Ilusões perdidas, Guerra e paz e Os miseráveis, além do livro que dá nome à coleção. “Para Germinal, de Émile Zola, também ele um jornalista, com um texto sintético, reli muitas vezes para selecionar o essencial. São edições concisas, não simplificadas, e procurei seguir o estilo magnífico de todos os autores, razão pela qual se tornaram clássicos."


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Também elaborou o Apêndice com uma biografia do autor, as características de seu estilo e a história da época. "Em Germinal, cuja ação transcorre no período em que foi criada a II Internacional, incluí um rol das Internacionais e fiz um apanhado histórico do que se passava na França e no mundo, incluindo o Brasil, abordando ainda o gênero a que o autor pertence, nesse caso o naturalismo, seus representantes brasileiros, como Aluísio Azevedo, escritos e influências. E nesse processo houve muitas descobertas legais, como a da ‘técnica’ usada por Azevedo, semelhante à de Balzac, de esculpir seus personagens em barro para ‘conversar’ com eles. E redigi o Guia para o Professor, com apoio da profa. Zilda Yokoi, da USP, uma pessoa maravilhosa. Ao conversarmos sobre Zola, ela me pediu para pensar numa obra que representasse Germinal e, de imediato, me veio à mente ‘Os comedores de batatas’ [de Vincent van Gogh, à esq.]. Ao escrever o Apêndice descobri que esse quadro foi pintado no mesmo ano em que o livro foi escrito, 1885. De todos, considero esse o ‘meu’ best-seller: lançado em 2000, em catorze anos já houve quinze reedições, o que é bastante para uma tradução e adaptação".

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Na Correndo Mundo, para a DCL, clássicos de aventura para crianças entre 8 e 12 anos, outra ideia do Fernando, "traduzi dois livros: Os três mosqueteiros e Alice no país das maravilhas [à dir.], ilustrado por Cris Eich, que sobre esse personagem disse: "Às vezes, nem sei explicar corretamente, mas as coisas acontecem sem que eu note e só vou perceber tempos depois: não sei se é pelo tipo de cabelo ou pelo formato dos braços e do vestido, mas achei que essa Alice tinha um quê de boneca de pano...". A Ilíada e a Guerra de Troia e A Odisseia, adaptei, e A saga de Hércules, escrevi. Todos muito lindos e sobre os quais fico feliz em conversar com a meninada. Em 2013 quando a coleção completou dez anos e foi lançado A saga, o décimo livro da coleção, houve um evento para educadores no Instituto Cervantes.


O contato com seus leitores

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Depois, a convite da Secretaria da Educação, ela foi a um CEU, em Navegantes, divisa de São Paulo com São Vicente, área carente, onde a biblioteca é um centro cultural com várias atividades nos fins de semana. “Uma turma do 7º ano, de uma professora jovem, fantástica, leu A odisseia. Tenho certeza de que só o amor e a dedicação do professor podem fazer diferença, porque as crianças são carentes, seus pais, analfabetos, mas querem o filho na escola porque sabem que assim ele poderá ter uma condição melhor, embora não tenham noção do que é leitura, nem livro, nem possam ajudá-los quando têm uma dúvida."

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Outra ótima experiência é a Feira do Livro de Porto Alegre. "Após a leitura do livro, os alunos de escolas públicas desenvolvem atividades como jogral, cordel e peças de teatro. Até filme Super 8 fizeram com base nos meus livros, para concorrer em Festival de Cinema organizado pelo próprio colégio." [à dir. em Novo Hamburgo (RS), em 2014].


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Brasil criança [à esq.] foi feito para ser distribuído a filhos de brasileiros no exterior e a crianças estrangeiras apresentando o país, a pedido do Itamaraty. "Redigi a maior parte e selecionei as imagens entre 3 mil fotos enviadas pela Embratur, o Diego escreveu sobre esportes e música e a Suppa ilustrou. Depois de pronto, foram impressos 30 mil exemplares para o Brasil. Tempos depois, ao ler uma matéria no jornal da FNLIJ, soube de uma bibliotecária russa, que estudou português, conhece literatura brasileira, e queria escrever um material sobre o país até que recebeu um exemplar do livro. Gostaria de conversar com ela, mas não consegui seu e-mail." Em seguida, a convite de Soraia Reis, na Larousse, escreveu o Mini Larousse dos Direitos da Criança. Para chegar aos direitos da criança, contou como as pessoas se relacionam, desde a Idade da Pedra até o fim da Segunda Guerra Mundial, quando se começou a pensar em direitos e solidariedade.

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Tornar-se autora

Embora sempre tenha escrito e, muito, não havia pensado em se tornar escritora. "O convite para Viagem pelo Brasil em 52 histórias surgiu numa reunião na Companhia das Letras, com Lilia Schwarcz, num dia em que me viu com um livro livro de folclore, cuja seleção eu havia feito, com parlendas e cantigas de roda. Trabalhei três anos em Viagem pelo Brasil. Comigo tudo é muito lento porque pesquiso à exaustão e reescrevo até ficar no ponto. Para falar dos mitos africanos, por exemplo, li Mitologia dos orixás (624 p.), de Reginaldo Prandi e obras de outros pesquisadores. Como o tema era muito complexo para criança, criei uma história sobre Iemanjá que as crianças ouvem em uma roda de candomblé no Rio de Janeiro. Também redigi todas as notas laterais e, no fim, trabalhei com uma calculadora, já pensando no número de caracteres, de páginas, enxugando o texto para haver margem para as ilustrações e vinhetinhas do Cárcamo, excelentes."


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"Essa experiência foi superlegal. Marcelo Levy [à época diretor comercial da editora] e Mariana Mendes fizeram um excelente trabalho, porque, sem divulgação, o livro não existe. O lançamento, com palestra para educadores na Cultura do Villa-Lobos [à esq.], foi um batismo de fogo; mas deu tudo certo. Em seguida, na PUC-RJ e em Belo Horizonte. O trabalho dos divulgadores foi fantástico; o livro foi para a vitrine e vende bem até hoje.

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Em seguida, veio a proposta de um livro sobre cada região do país "e aí pensei num projeto diferente. Pesquisei muito, em especial material sobre o norte e o oeste da Amazônia, onde há escolas bilíngues. Fiz um projeto em que cada história é seguida de um almanaque que comenta e ilustra o que foi dito no conto. Qual é o seu Norte? tem cinco capítulos: "Biodiversidade"; "Os remédios da floresta"; "Reservas e sítios arqueológicos", "Como viver da floresta (sem desmatá-la)" e, por sugestão de Júlia Schwarcz, "Como a Amazônia se tornou Brasil". Qual é o seu Norte? é um livro muito querido; é minha carta de amor à Amazônia. Faz parte da 'Série Viagem pelo Brasil’.” [Acima Diego, Fernando, Silvana e Bruno na tarde de autógrafos.]


Autor e ilustrador, um diálogo importante

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Alguns trabalhos demoram, a produção é longa. “Para ‘Qual é o seu Norte?', o Cárcamo estava ocupado e esperamos um ano. Costumo participar, com a editora, da escolha do ilustrador. Os ilustradores enviam os roughs, antes de colorir e finalizar, para o autor acompanhar o processo e aprovar. O diálogo entre autor e ilustrador é muito importante. No caso de A Ilíada e a Guerra de Troia, ilustrado pela Claudia Scatamacchia, não tivemos contato e as ilustrações também foram perfeitas.

Na Correndo Mundo a ideia era não repetir ilustradores. Por se tratar de personagens mitológicos, os desenhos precisam se ater ao já determinado cultural e historicamente: Helena de Troia não pode ser feia e as sandálias de Hermes, mensageiro dos deuses, precisam ser douradas.

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Entre tantos outros trabalhos, houve também uma organização para a Cargill-DCL, que reuniu 20 autores, 20 ilustradores e um quadrinista, para a qual Silvana escreveu dois contos. Depois disso, lançou O aluá do macaco e outras macaquices (DCL), com histórias engraçadas sobre macacos.

A premiação inesperada e o mergulho na cultura latino-americana

"Ser premiada foi uma grande alegria. Recebi prêmios Altamente Recomendável, mas o de Melhor Reconto, da FNLIJ, foi ótimo! Ao recebê-lo, não disse nada; estava muito emocionada.”


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Histórias da América Latina foi uma ideia da editora Otacilia de Freitas [à época na Planeta]. Com uma história de cada país, perfazendo 22, “demandou bastante trabalho, um vez que o folclore latino-americano é maniqueísta, com forte influência religiosa: 'Ele fez isso e foi castigado'. Demorei até encontrar histórias interessantes com margem para recriar um pouco. Depois da primeira redação, fui apurando o texto até chegar ao ponto adequado para me comunicar com a criança e o jovem de forma adequada, com uma linguagem gostosa de ler, sem ser diluída. O humor é algo que persigo ao criar, ou recriar, histórias. O humor tem grande poder de comunicação; conquista o leitor e torna a leitura atrativa. Cada história desse livro foi ilustrada por um artista diferente; a capa e o projeto gráfico são do Mauricio Negro. Para as ilustrações, foram convidados 22 artistas gráficos do Brasil e do exterior.


Um grande estilista

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O segredo das minas de prata foi uma edição concisa para a DCL, "de um dos poucos livros brasileiros cuja narrativa se passa no século XVI, mostrando a vida da época, a relação entre Igreja, senhores de engenho, índios e pessoas do povo". Li As minas de prata (1.200 p., 3 volumes) no curso do professor Alfredo Bosi na Letras. Trabalhar no livro do Alencar foi uma grande experiência. Várias escolas o adotam, o que me deixa muito contente. Quando os alunos me perguntam porque fiz este livro, digo que gostaria de transmitir aos leitores o encanto que senti ao lê-lo. Há muito preconceito contra o Alencar [à esq.]. Ninguém mais o lê, mas este romance histórico e de costumes mergulha na vida política e social fazendo duras críticas. O Alencar é um grande estilista. N'As minas de prata, sem usar absolutamente nenhum advérbio, encaixa um parágrafo atrás do outro com elegância e clima.


Alguns passos a mais no caminho da imaginação

Silvana está trabalhando bastante. “Tenho vários projetos na Companhia das Letras. No prelo, um livro grande sobre a África pela Girassol, com histórias interessantes, ilustrado pela Ana Lúcia, e um apêndice bem completo. Outro é Fábulas, pela Panda, em que mesclei fábulas de La Fontaine [abaixo] e Esopo a fábulas brasileiras, para o leitor sentir a diferença: na lenda indígena não existe lição de moral, em contraponto à tradicional, onde alguém sempre sai prejudicado ou dá a volta por cima.

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Atualmente, Silvana diz ter dado um “passinho a mais”: vem trabalhando em infantis de sua criação. "Acabo de entregar um livro em versinhos para a Melhoramentos. Pela Carochinha, vai sair um livro muito simpático para a criançada, ilustrado pelo Bruno Nunes. E estou finalizando um livro para a meninada maior, na DCL, que surgiu a partir de um sonho."


Em casa e na escola, o estímulo à leitura

A relação com os idiomas, Silvana acredita ser resultante de uma confluência. Aluna do Colégio Dante Alighieri, teve aulas com excelentes professores de italiano e de inglês e aprendeu um pouco de francês, razão pela qual optou por este idioma ao entrar na ECA. “Nosso professor era filho de franceses, formado em Linguística. Não escrevemos uma única palavra; ouvíamos e reproduzíamos os diálogos. M. D’Olim até pegava no nosso rosto para mostrar como devia ser produzido cada som. Foram oito meses de aula, onde aprendi francês. Então comecei a ler, tive aulas particulares e mais tarde estudei na Aliança Francesa."

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"Quanto aos livros e à literatura, trata-se de uma herança e de um hábito cultivado desde cedo. Em casa, seu pai “tinha muitos livros. Li tudo do Érico Veríssimo [à dir.], quase toda a Comédia Humana, de Balzac, Em busca do tempo perdido, de Proust etc. Os pais da ilustradora Ana Lúcia, minha amiga, tinham a obra completa de Jorge Amado e Monteiro Lobato, que eu também li. Na escola, quando o professor de literatura indicava um livro de um autor, lia aquele e tudo que encontrasse dele na biblioteca. Não comprávamos livros, íamos à biblioteca do colégio. Também tive aulas de literatura italiana, francesa e inglesa e estudos gregos e latinos durante três anos, história da arte, sete anos, com uma professora maravilhosa. As histórias do Renascimento sabíamos praticamente de cor, tanto que, no curso de história da arte em Florença os assuntos já eram antigos conhecidos meus”.

As leituras hoje

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"Neste momento estou lendo Judas, de Amós Oz, e gosto de autores novos brasileiros, portugueses, africanos e europeus. Comprei o livro do Modiano [Patrick], considerado o novo Proust, e procuro adquirir também o que está em voga, os premiados e os autores juvenis. Quando meus filhos eram pequenos líamos para eles Ruth Rocha, Eva Furnari, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga [abaixo], autoras bárbaras, muito criativas. Para mim Monteiro Lobato foi o máximo, viajei de cabeça no mundo da Emília, na Via Láctea, nos trabalhos de Hércules. Tanto que, quando se cogitou na coleção Correndo o Mundo um livro sobre Hércules, argumentei que já havia o do Lobato, não dava para fazer outro. Por isso li a obra de Junito Brandão, pelo qual sou apaixonada, e tudo que temos na nossa ultrabiblioteca de mitologia. Como não queria falar do início do mundo grego, pois Hércules é um herói muito antigo, e isso me pareceu complexo para as crianças, abordei brevemente sua formação."

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Os outros idiomas e culturas

Leio literatura em italiano, espanhol, francês e inglês. Tenho algumas coleções do meu pai, como a do Balzac, da Globo, com prefácios sublimes de Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana [abaixo]. Foi aí que descobri Ilusões perdidas e indiquei, nos anos 1970, para o Círculo do Livro. Em geral, leio à noite. Para traduzir compro edições de bolso, como Os três mosqueteiros, em três volumes, ou Alice. Esses dois livros não são nada simples; os diálogos estão inseridos em meio à narração, e é preciso muita atenção e empenho para desmembrá-los.

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Manter os clássicos vivos

Com tanta experiência em adaptação, reconto, tradução, seleção, organização, redação, criação, quisemos saber a opinião de Silvana sobre o projeto de adaptação de O alienista, de Machado de Assis, que gerou uma das grandes polêmicas de 2014 na área editorial e entre educadores. Para justificar sua iniciativa, um dos exemplos da autora Patricia Secco foi a substituição de sagacidade, palavra difícil para os alunos, segundo ela, por esperteza, mais "simples".


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“Acredito que o leitor tem de dar sempre um pulinho a mais a cada livro que lê. O aluno, quem está se formando, tem de aprender um pouco a mais. Onde aprendemos vocabulário? Lendo. Essas palavras todas que estão no nosso ouvido e aparecem quando escrevemos, às vezes até antigas, estão no nosso universo, porque vieram da leitura. É a leitura que forma o leitor. O Fernando também sempre diz isso aos alunos: ‘Talvez vocês não entendam uma ou outra palavra, mas é assim que vocês crescem’. Não concordo com essas simplificações de vocabulário ou de estruturas. Machado de Assis [à esq.] não é José de Alencar, autor de descrições imensas, um capítulo inteiro para descrever o pôr-do-sol; Machado é irônico, moderno.


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"No Brasil vejo muito preconceito. Na Europa e nos Estados Unidos as adaptações são correntes, degraus para o aluno chegar ao original. Creio que se poderia ter uma adaptação do Machado, mas sem substituição de palavras. No caso do Alencar, mais antigo, seu texto é em português de Portugal. Numa das escolas, li um parágrafo d'As minas de prata e os alunos caíram na risada; não entenderam nada! O Machado já é mais moderno. A crítica diz que se trata de redução, por isso no Brasil é tão difícil mexer em autores nacionais. Mas essa é uma forma de eles não morrerem. Mesmo autores mais contemporâneos e maravilhosos, como Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Teles, Manuel Bandeira são pouco lidos, o que é uma pena. Ler um conto da Lygia, por exemplo, é uma verdadeira aula de psicologia, de criação e estética. Ler nossos grandes autores é essencial.




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