Entre linhas, entre letras, entre livros

Ivan Marques

 

Revista Panorama Editorial

 O aprendizado das letras e a descoberta da Literatura foram experiências que marcaram profundamente a minha vida de menino no Interior de Minas. Assim como Caetano Veloso, poderia dizer que “quase não tínhamos livros em casa”. Montes Claros tinha pouco mais de 100.000 habitantes, e hoje penso nessa cidade da infância como um pequeno mundo rural, quase arcaico, dominado pela oralidade. Talvez por desejar viver em outro mundo mais vasto, cedi desde o princípio aos impulsos da fantasia.

  Antes mesmo de dominar a leitura, aprendi a dizer versos que se depositaram no fundo da memória – “Bárbara bela, do Norte estrela, que o meu destino sabes guiar...”. Os sinais impressos de tal modo me impressionavam que me sentia intimidado. Custei a decifrar as letras e as sílabas. Em compensação, sabia poemas e histórias de cor, e conseguia “ler” páginas inteiras, tendo como apoio apenas as ilustrações.

  No curso primário, continuei sofrendo o impacto da luta com as palavras, e afinal veio a descoberta de que os textos pediam, de fato, decifração. Nunca vou esquecer a aula em que um obscuro crepúsculo, descrito com solenidade por José de Alencar, ganhava clareza e sentido a partir da explicação dada pela professora. Creio ter vislumbrado ali, pela primeira vez, os caprichos da linguagem, o poder transfi gurador das metáforas e “a poesia imensa” que, segundo o autor de O Guarani, existia nas coisas, dependendo de como fossem olhadas. 

  Entre as revelações iniciais, também me recordo do poema “Berimbau”, de Manuel Bandeira, que conheci na quinta série, numa gravação do próprio autor: “Os aguapés dos aguaçais nos igapós dos Japurás bolem, bolem, bolem...”. Na voz impostada do poeta, as sonoridades se rebatiam de modo surpreendente e misterioso. Novos mundos se abriam.

  Estimulado pelas telenovelas da década de 70 (esse período de chumbo em que a televisão, como se sabe, abrigou muitos talentos e foi palco de experiências vanguardeiras), acabei adquirindo o hábito de ler romances. Comecei pelos autores românticos que inspiravam as adaptações exibidas pela TV Globo, como parte de seu projeto “nacionalista”. Depois passei aos realistas e modernistas. Devorei obras de Erico Verissimo, Jorge Amado e dezenas de autores brasileiros e estrangeiros. Gostava do mistério que havia nos contos de Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Murilo Rubião.

  Na oitava série, tive a sorte de freqüentar um “curso básico de literatura brasileira”. Em cada escola literária, a classe era dividida em grupos, e tínhamos que apresentar seminários sobre os livros. Produzi então minhas primeiras “monografias”, versando precocemente e às escuras sobre temas cabeludos, como a fi losofi a em Quincas Borba e “a intemporalidade psicológica” na obra de Machado de Assis. Tinha grande interesse pela estrutura das narrativas (ação, personagens, ponto de vista, linguagem). Aos 14 anos, já estava convencido de que os maiores escritores brasileiros eram Machado, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos – e o maior romance era São Bernardo.

  Na adolescência, também costumava passar tardes inteiras redigindo crônicas, versos, contos e até romances. Escrevia com fluência, mas não revisava nada – não sabia ainda que “escrever é cortar”. O resultado eram páginas numerosas e vazias, histórias pueris que tinham quase sempre como tema o desengano e a frustração. Eu próprio me sentia frustrado com elas. Mais tarde, com o vestibular, o curso de Jornalismo e a necessidade de ganhar a sobrevivência, não senti pena por abandonar de vez esse projeto literário.

 A paixão pelas letras, no entanto, permaneceu, ganhou profundidade e hoje se manifesta num convívio multifacetado, em que se somam modos múltiplos de amar: a pesquisa acadêmica, a prosa de ensaio, a leitura dos clássicos e dos contemporâneos, o jornalismo cultural, o diálogo com escritores, a experiência de editar um programa literário na TV – numa palavra, o eterno vício de viver entre linhas, entre letras, entre livros.