Novos e velhos desafios do jornalismo cultural  

Paidos Ibérica, 1995
Contexto, 2003
Summus, 1997

   Na conversa com Ivan Marques, a crítica e a relação entre imprensa, literatura e livro não ficou de fora. Suas considerações passaram pela importância do rodapé no fim do século XIX e princípios do XX, pelos críticos não acadêmicos, mas “muito rigorosos”, como Álvaro Lins e Antonio Candido, nos anos 1940, pela supressão desses espaços e o surgimento, nas décadas de 1950-60, dos suplementos literários nos jornais diários e por sua posterior substituição pelos cadernos culturais. Nesses, a literatura perdeu espaço e o destaque passou a ser a divulgação do produto livro, para a qual a resenha se tornou o texto predominante. Na atualidade, segundo ele, até mesmo esta entrou em declínio: primeiro, na dimensão: o que vemos são micro, nanorresenhas; segundo, na estrutura: adotou-se o modelo do release, com suas estratégias de sedução; terceiro, na profundidade: “cada vez mais rasa, menos consistente"; quarto, na concepção de seu destinatário: o leitor de gosto médio. E, somado a tudo isso, o fato de “vivermos numa época em que parece que tudo pode, em que ninguém mais detém a verdade do que é um bom texto ou a boa literatura”. 

 

   O parágrafo acima talvez pudesse ser um resumo ligeiro dos principais momentos e ideias em debate na primeira parte do livro Jornalismo cultural no século 21 – Literatura, artes visuais, teatro, cinema e música, a história, as novas plataformas, o ensino e as tendências na prática, de Franthiesco Ballerini.

 

Um panorama mundial e brasileiro

 

   Assunto controverso até mesmo em sua denominação, uma vez que, como ressalta a profa. Cremilda Medina, “todo jornalismo é cultural, pois inserido em uma sociedade”, a cobertura na imprensa da cena cultural, zona complexa e heterogênea, segundo o uruguaio Jorge Rivera (1935-2004), radicado na Argentina e ex-professor da Universidade de Buenos Aires (UBA), autor de El periodismo cultural, é ao que se dedica Ballerini, escorado em sua ampla experiência.

 

   Área carente de estudos no mundo, “quer por documentação inconstante, escassa ou de difícil acesso” (p. 11), o jornalismo cultural se desenvolveu e consolidou no mundo e atrai parcela significativa dos estudantes de jornalismo. No entanto, se há certa glamourização das áreas que abrange, como o cinema, requer, tanto quanto as demais, sólida formação, razão pela qual o autor, mesmo interessado em fornecer as bases para entender a prática nessa área no século 21, prática essa que a tecnologia revolucionou nos últimos anos, ressalta a “necessidade de compreender seus reais delineamentos no contexto histórico, além dos hábitos, erros e estratégias de seus protagonistas ao longo do tempo” (p. 11).

 

Estrutura e contribuições

 

   Dividido em 10 capítulos, Ballerini parte dos primórdios na Inglaterra, quando foi lançada a revista The Spectator, cujo objetivo era “levar a filosofia dos gabinetes e bibliotecas, escolas e faculdades para clubes, assembleias, casa de chá e café” (p. 16), época em que o conceito de gêneros jornalísticos ainda não se consolidara nem sequer na Europa, e chega ao século XX, quando o número de jornais e revistas destinados ao tema cresce significativamente, as análises são substituídas por notícias e reportagens e o foco passam a ser os bens culturais.

 

   Na descrição da trajetória do jornalismo cultural no Brasil, o autor se beneficia e vai além de outros trabalhos, como o já citado livro de Rivera; Jornalismo cultural, de Daniel Piza, e A literatura nos jornais, de Claudia Nina. Uma ressalva, no entanto, é necessária. Ao tratar do “Suplemento Literário” do Estado de S. Paulo, que considera o principal entre os vários surgidos na década de 1950, ele se apoia no estudo de Elizabeth Lorenzotti para lembrar que os responsáveis pelo projeto tinham por objetivo “evitar dois extremos: o tom excessivamente jornalístico e o excessivamente acadêmico” (p. 26), mas omite a conclusão a que a pesquisadora chegou: “esse suplemento, embora veiculado na grande imprensa, tinha um caráter não jornalístico” (versão on-line).

 

   Entre as contribuições relevantes, um tópico no capítulo 1 dedicado à concepção de cultura segundo vários estudiosos, as opiniões de profissionais com larga experiência, como Alcino Leite Neto, Armando Antenore e Maria Amélia Rocha Lopes, ao fim do capítulo 2, que permitem ao leitor perceber os pontos fracos, fortes e algumas das principais mudanças na cobertura dessa área, e os capítulos específicos dedicados à literatura, às artes visuais, ao teatro, ao cinema e à música, nos quais também apresenta avaliações de jornalistas especializados e nessas áreas.

 

Novas plataformas e novos universos

 

     Neste momento, para ele de transição, há desafios já conhecidos, como a redução das equipes nas redações, as deficiências na formação dos profissionais, a pressão e a escravização da agenda de lançamentos, o assédio das assessorias de imprensa ávidas por espaços na grande imprensa, a “desimportância” da crítica e o predomínio da imagem; e outros mais recentes: como as transformações do mercado cultural, a modernização dos jornais brasileiros, leitores mais propensos ao entretenimento e o predomínio cada vez maior do digital sobre o papel e seu impacto na prática do jornalista que cobre a área cultural, que se ampliou com novos universos, como TV, informática, games, gastronomia e moda.

 

   No âmbito das novas plataformas, cuja presença se acentua a partir de 1990 com a popularização dos celulares e a expansão da internet, embora sejam suportes possíveis para renovações nas práticas do jornalismo cultural, áreas como o cinema e a música ainda aproveitam pouco seus recursos.

 

   Infelizmente, talvez pela ausência de estudos sistematizados, não há menção a experiências de revistas digitais e, sobretudo, de blogues, que proliferam nas redes.

 

    Já no capítulo 10, apresenta reflexões sobre o ensino de jornalismo cultural, como o debate em torno das disciplinas da grade curricular, e itens considerados importantes para a formação do profissional que pretende atuar nessa área.


Jornalismo cultural no século 21 – literatura, artes visuais, teatro, cinema e música

Grupo Editorial Summus
230 p.
R$ 69,20

 

Franthiesco Ballerini é mestre em comunicação social e autor de Bollywwod, curiosidades e segredos da maior indústria de cinema do mundo (Summus, 2009) e Cinema brasileiro no século 21 (Summus, 2012).  Foi repórter e crítico do Grupo Estado por sete anos, colaborador de revistas como Bravo!Contigo! e Quem, colunista do jornal O Vale, da Rádio Eldorado e da TV Gazeta, colaborador da revista Cult e professor de Comunicação e Audiovisual em instituições como Faap, UMC e Faculdades Integradas Rio Branco.